Ace Team - Clube de Ténis de Alfragide

CENTRO NACIONAL DE TREINO (CNT) - PARTE I: " O APOGEU, A QUEDA E O REMAKE"

18 Março 2009

Autor: Pedro Bivar

 

CENTRO NACIONAL DE TREINO:  O APOGEU, A QUEDA E A REMAKE


Nestes últimos tempos tem-se falado muito da criação de novo dum Centro Nacional de Treino por parte da FPT. Não que a Federação estivesse particularmente empenhada no surgimento desta estrutura, mas porque o IDP, disponibilizando avultadas verbas, pretendia criá-la.


Quem o afirma é o candidato á Presidência da Direcção da Federação Portuguesa de Ténis Dr. José Maria Calheiros, em entrevista ao site Bola Amarela, e citamos:


BA: CAR (Centro de Alto Rendimento)? o que é? Para que serve?
JMC: O CAR é um projecto do IDP e da Secretaria de Estado que a FPT pretende ajudar a desenvolver e a solidificar. Estamos a trabalhar nisso.
É importante sublinhar que o CAR não se destina a substituir os clubes, nem a fazer concorrência aos treinadores. Longe disso. Os clubes são a base, os treinadores dos jogadores são essenciais. O CAR será uma estrutura complementar e aberta para ajudar os jovens jogadores. Não vejo o CAR como algo separado e estanque do resto. O sucesso do CAR dependerá da forma como se souber relacionar com os atletas, com os treinadores e com os clubes.
Para além disso, tem de ser uma estrutura exemplar em termos de competência e qualidade.”

Isto faz-me recordar o surgimento, apogeu e queda do CNT que tivemos há anos em Portugal, do qual fui no inicio um fervoroso adepto, enviando mesmo para lá alguns dos meus melhores atletas, por considerar que tal estrutura tinha mais capacidade logística do que o meu próprio Clube para apoiar os atletas que queriam abraçar o profissionalismo.


O Centro de início pareceu corresponder aos objectivos traçados pela FPT e sobretudo pelo seu primeiro responsável, o checo Ian Sokup que reestruturou igualmente as Selecções Nacionais Juvenis que até aí tinham actividades esporádicas e casuísticas e que começaram a desenvolver um trabalho regular e sistemático de detecção, observação e acompanhamento em idades cada vez mais precoces dos nossos melhores valores. 


Foi quando, no inicio, dos anos 90 estavam operacionais Equipas Nacionais de todos os escalões etários, masculinas e femininas, cujos capitães e respectivos adjuntos podiam programar uma época de Torneios internacionais, estágios, encontros amigáveis etc. a custo zero para todos os atletas chamados às Selecções Nacionais.

Quão distantes estamos desses tempos em que havia um efectivo investimento financeiro por parte da FPT no nosso ténis Juvenil e de que todos, digo todos, os actuais melhores jogadores e jogadoras portugueses seniores da actualidade beneficiaram em grande medida. 


Na Selecção Nacional de Sub 14 Masculinos, que englobava os Sub 12 e onde se fazia ainda a Detecção de Talentos, cheguei a programar e realizar para cima de 13 Torneios internacionais por época, mais um número razoável de estágios e encontros amigáveis com a vizinha Espanha. No último ano em que estive em funções (2000) participaram nestas actividades 52 atletas dos 10 aos 14 anos. Tudo sem que os atletas despendessem um tostão.


Hoje, quase 20 anos passados os melhores valores de cada escalão terão talvez meia dúzia de saídas pagas pela FPT por ano, tudo o resto é pago pelos atletas e em alguns casos o acompanhamento técnico é oferecido pela FPT.


Como foi possível tamanho retrocesso no empenhamento e investimento no nosso Ténis Juvenil. Voltámos à era do “só joga quem tem dinheiro”?


 Poderá parecer aos mais desatentos ou com falta de memória que o aparecimento dum novo CNT virá colmatar esta falta de investimento no nosso ténis juvenil, seja financeiro, técnico ou de qualquer outra natureza. Mas aqueles que, como eu, assistiram ao nascimento e queda do anterior Centro, não podem deixar de sentir um legítimo sentimento de apreensão e desconfiança com esta nova aventura federativa, ainda para mais quando não se vislumbra uma genuína vontade de abraçar o projecto, como apesar de tudo aconteceu na anterior experiência, e mais parece estarmos a assistir a um casamento forçado, onde a noiva pobre (a FPT) está a deixar-se seduzir pela opulência financeira do noivo rico (o IDP) que apesar da crise generalizada parece querer esbanjar uns milhões.


Mas será que o aparecimento dum novo CNT virá responder aos nossos anseios constituindo um novo motor para o Ténis Nacional Juvenil?


Voltando ao anterior Centro Nacional de Treino, este veio assim dar, a par das actividades das S. Nacionais, um grande pedrada no charco do que constituía o Ténis Nacional Juvenil. O Centro era destinado aos atletas (só a partir dos 15 anos) que aí treinavam numa base diária, apesar de continuarem a pertencer aos Clubes donde eram oriundos e as Selecções Nacionais para todos os que, no Centro ou fora dele, manifestassem qualidade para as integrarem.


Comecei a perder as ilusões e esperanças acerca das capacidades do Centro em produzir jogadores profissionais quando começou a ser notório que a esmagadora maioria dos atletas que o compunham não tinha intenções de fazer carreira do Ténis e que à medida que se iam aproximando do fim do Secundário se serviam do Centro como trampolim para adquirirem o Estatuto de Alta Competição que lhes proporcionava entrada directa na Faculdade, sem terem de fazer exames de admissão, requeridos a todos os outros estudantes.


Também me deixou preocupado o facto de a partir de certa altura o Centro ter deixado de atrair os melhores valores nacionais para preferirem treinar nos seus Clubes com os respectivos treinadores e isto apesar de aí não gozarem nem remotamente das mesmas as condições financeiras que o Centro proporcionava, tais como as saídas para Torneios Internacionais a custo zero e treinos gratuitos.


Assim, o Centro nos seus 10 anos de existência (1992-2002), nunca conseguiu produzir qualquer jogador profissional enquanto seu atleta e não foi com espanto que teve a sua morte anunciada um ano antes de encerrar as portas, com a debandada dos seus melhores valores para Academias privadas, havendo muitas dúvidas sobre a capacidade financeira para prosseguir as suas actividades e até para assegurar o pagamento dos salários dos seus treinadores. 


No fundo parece-me claro que o que ditou o fim daquele CNT não foi apenas uma razão, mas a conjugação de vários factores que levaram a esse inevitável desfecho, alguns deles já aqui apontados.


O facto de o Centro não atrair os melhores valores nacionais que continuaram a treinar nos seus Clubes de origem, albergar atletas pouco motivados (ou nada) para prosseguir uma carreira profissional e estarem mais interessados a médio prazo numa carreira universitária, sem dúvida que ajudou pouco, como também pouco ajudou o facto de na parte final da existência do Centro haver pouca disponibilidade financeira para saídas internacionais.
Também o facto de alguns atletas que viviam no Centro de Estágio (os de fora de Lisboa) estarem aí entregues a si próprios mal terminassem os treinos da tarde sem qualquer acompanhamento ou ambiente familiar e o extraordinário facto de depois de jornadas intensas de treinos diários ainda terem de à noite frequentar os cursos nocturnos no liceu até altas horas da noite, sobretudo para atletas que treinavam no outro dia de manhã cedo, deve ter dado a machadada final na sua sobrevivência.


Na altura, em Fevereiro de 2001, escrevi um artigo, que até foi muito mal aceite por alguns dos responsáveis do Centro em que expunha o meu ponto de vista, que um Centro com aquelas características e no que se tinha tornado não servia o ténis Nacional e seguramente não cumpria os objectivos para o qual tinha sido desenhado sendo apenas mais um sorvedouro das parcas finanças federativas e uma fonte de frustração para todos.


Foi por isso na altura que defendi que devia ser criada uma “Bolsa de jogadores” que apoiasse com recursos financeiros uma série de jogadores com idades compreendidas entre os 15 e os 18 anos, com um nível competitivo internacional bastante aceitável, com bons rankings internacionais juvenis e alguns com pontos ATP. A estes devia ser proporcionado um apoio individualizado, dado que estavam, como escrevi na altura,
“…numa fase crucial da sua carreira, uns já com carreira profissional iniciada e outros à beira dela… Uns e outros necessitam urgentemente de todo o apoio possível, sob o risco de, como já aconteceu por diversas vezes no passado, se perderem novas gerações de jogadores. Portugal não se pode dar a esse luxo. O facto de não se apoiar pelo menos este conjunto de jogadores e recomeçar-se um processo formativo e competitivo, que necessariamente vai levar anos, gastando os poucos recursos existentes, e ainda para mais com alguns jogadores que não são os melhores das suas categorias, é um desperdício e um risco que penso não devermos correr. Não podemos estar sistematicamente a reiniciar processos. Temos de terminar alguns!”


Citei entre outros, os casos de Leonardo Tavares, Tiago Godinho, Peter Rodrigues, Rui Machado, Frederico Gil, Hugo Anão, Diogo Rocha, Francisco Neves, João Ferreira, Frederico Marques, Vasco Antunes, etc…


Alguns destes ainda continuam em actividade, muitos perderam-se por total falta de recursos financeiros para apostar numa carreira profissional, outros porque decidiram prosseguir outras actividades nas suas vidas, outros tiveram de emigrar, mas todos, digo todos, sentiram de alguma forma a falta de investimento financeiro nas suas carreiras e um total alheamento federativo nos seus projectos.


E foi uma pena porque não temos capacidade produtiva de jogadores de competição de nível internacional de forma a desperdiçarmos os pouco existentes.


Pois neste momento e passados quase 7 anos do encerramento sem glória do último e até ao momento único Centro que existiu em Portugal, preparamo-nos para repetir a experiência que ao que tudo indica tem os mesmos ingredientes que levaram ao fracasso do anterior, talvez com uma alguma diferença no nível motivacional dos actuais jogadores portugueses que poderão hoje em dia acreditar mais que podem ter sucesso numa carreira profissional, talvez em parte pelos casos recentes e mediáticos de alguma projecção internacional dos nossos melhores jogadores, mas com uma enorme desvantagem em relação ao último: é que este nem sequer é um projecto da FPT. É um projecto do IDP.


É neste sentido que venho de novo alertar e quase repetir textualmente o que escrevi à praticamente 8 anos: temos vários jogadores com nível internacional que carecem urgentemente de apoio financeiro para prosseguir as suas carreiras internacionais, aliás as únicas verdadeiramente importantes para quem quer fazer vida do ténis.


Dada a crise económica e financeira que assola praticamente todo o mundo é actualmente dificílimo arranjar patrocinadores que invistam no Ténis, sobretudo em jogadores juvenis sem expressão a nível de marketing. Contudo são sobretudo estes e nesta fase da sua vida competitiva os mais necessitados desse apoio. Deveria pois caber ao Estado, através da FPT, suprir essa falta de apoio do sector privado, ainda para mais quando parece que não faltam verbas para aplicar no Ténis.


Ir gastar importantes recursos num Centro Nacional de Treino, com quase uma certeza absoluta que os melhores jogadores não vão abandonar os seus Clubes e treinadores para aí ingressarem, sem ter uma certeza absoluta que é um projecto a longo prazo com verbas que estarão destinadas nos próximos anos a apoiar o Centro e tão importante a assegurar as dispendiosas saídas de atletas e treinadores para o estrangeiro, sem resolver o importantíssimo tema dos Estudos e horários Escolares para os nossos melhores jogadores, sem resolver o grave problema de os atletas de fora de Lisboa serem depositados a médio ou longo prazo no Centro de Estágio onde não existe qualquer apoio ou ambiente familiar, temo que estejamos a desperdiçar mais uma vez o indispensável apoio que deveria ser canalizado para aqueles poucos que com provas dadas dele mais necessitam.


Essas provas dadas só podem ser aferidas através de resultados em Provas internacionais e através dos rankings Internacionais. Parece-me que em primeiro lugar e como regra geral, que pode admitir excepções criteriosamente ponderadas, os atletas a apoiar pela FPT através de Bolsas de Jogadores devem em primeiro lugar fazer um certo investimento nas suas próprias carreiras e ter alguma projecção internacional de forma a que não se repita o trágico erro de apoiar a fundo perdido uma enorme quantidade de atletas que nunca tiveram qualquer expressão internacional, que sabia-se mesmo à altura não pretenderem seguir carreira como jogadores, que utilizaram o Centro para ingressar em Faculdades e que nunca tiveram de devolver 1 cêntimo apesar de terem sido apoiados durante anos.


Aliás o Centro Nacional de Treino, ou “um” CNT já foi criado e está em funcionamento, mesmo que inadvertidamente, desde há alguns meses quando entraram em funcionamento os extraordinários campos cobertos em piso rápido do Jamor. Basta visitá-los a qualquer hora do dia para se verificar que aí está presente a nata do nosso ténis Juvenil e Sénior, sentir o ambiente que aí se respira e o convívio salutar entre os nossos melhores jogadores e respectivos treinadores. Numa modalidade em que trabalhamos muitas vezes isoladamente, em que pela natureza do nosso desporto nós e os atletas nos viramos demasiadas vezes para nós próprios, este convívio entre os melhores jogadores e os principais treinadores de Competição Nacionais tem constituído, pelo menos para mim, uma verdadeira lufada de ar fresco. Há muito tempo que não tinha o prazer de encontrar tantos colegas de profissão que muito prezo e que alguns deles já não via há algum tempo e ter “in loco” a oportunidade de partilhar experiências e pedir ou dar conselhos sobre um ou outro atleta.
E isto foi conseguido espontaneamente sem que a FPT ou o IDP tivessem gasto verbas extras num Centro com custos fixos mensais presumivelmente de alguma importância (pelo menos para as finanças federativas), mas tendo apenas colocado ao dispor da comunidade competitiva umas instalações de altíssimo nível.

Termino com um exemplo pessoal, que penso que infelizmente não é caso único. Treino já há alguns anos uma jogadora, cujos pais, o Clube e eu próprio, temos feito um considerável esforço para que progrida como jogadora de nível internacional, o que tem implicado constantes deslocações para o estrangeiro.

Para se ter uma ideia do esforço despendido, diga-se que em 2008 fez 21 Torneios Internacionais dos quais a FPT custeou 5 deles (e 3 foram Campeonatos da Europa, por Equipas e Individual, em que é quase uma obrigação a Federação participar). Tudo o resto foi pago integralmente com dinheiro dos pais.
A este esforço financeiro considerável em deslocações para o exterior há que somar os custos com treinos técnicos e físicos, material desportivo, constantes deslocações em Lisboa para treinos nos horários mais inverosímeis, deslocações para Torneios em Portugal, tratamentos de fisioterapia devidos a lesões, etc, etc, etc… (os alemães, com o seu espírito analítico, quantificaram há uns anos quanto tinha custado o Boris Becker à Federação Alemã e já na altura tinham sido muitos milhões…)


Isto significa que, falando apenas no investimento financeiro sem mencionar as enormes capacidades da atleta em causa, que sem elas obviamente tudo seria impossível, se todos os envolvidos no processo não tivessem vindo a fazer nos últimos anos um esforço enorme, contínuo e crescente, excluindo naturalmente a FPT, a atleta estaria muito longe do seu actual estatuto, talvez como infelizmente acontece a outras com pelo menos tanta qualidade como ela, já a pensar em desistir de uma carreira profissional por estarem convencidas que a distância que as separa das melhores do mundo da sua idade começa a ser inalcançável e que já não conseguem acompanhar o ritmo.

Os sonhos de uma carreira profissional começam a desmoronar-se quando os atletas, findas as ingenuidades da infância, começam a ter estas percepções (até aos 12 anos todos acreditam que vão ser nº 1 do Mundo).


Já agora diga-se que fruto destes esforços conjuntos, programámos que no final do ano (o seu último ano Sub 14) seria Top 10 do Ranking Europeu Sub 14 e terminou o ano a 9 e que seria Top 50 no escalão acima, e terminou a 35 do ranking Europeu Sub 16.


Ora esta atleta fruto dos bons rankings Tennis Europe, adquiriu o Estatuto de Alta Competição pelo qual:
• a Escola tem por lei de lhe permitir um Regime especial de Faltas, que lhe serve de pouco dado que a sua carga horária se mantém, as disciplinas são as mesmas que as de todos os outros estudantes da sua Escola (façam desporto de Alta Competição ou sejam completamente sedentários), 14 no 9º ano(!!!), e quando regressa dos Torneios Internacionais tem de fazer num período de tempo concentrado todos os testes que não pôde fazer por estar fora de Portugal. Já não falando da má vontade com que muitos professores na Escola vêm as suas saídas para Torneios Internacionais, quase como que achando que vai de férias.
Isto acarreta-lhe períodos de total stress para cumprir as suas obrigações escolares e que implicam períodos também de total descontrolo nos treinos de Ténis dado que anda esgotada para cumprir todas as suas obrigações. Já nem falo em ter tempo para si, para se distrair ou simplesmente para descansar.


• O Estatuto de Alta Competição permite-lhe também ter acesso a uma Bolsa de Jogador, pela qual o IDP lhe fornece um montante anual para comparticipar despesas, mas que é de tal forma exíguo que dá para custear talvez 2 Torneios Internacionais.


Portanto conclui-se facilmente que a atleta atingiu este nível em grande parte (claro que se sabe que o dinheiro não resolve tudo) devido à capacidade e apoio financeiro incondicional da família e de todos os restantes intervenientes no seu processo desportivo.


É por isso que defendo que só se podem despender as quantias avultadas que se vão gastar na criação dum Centro Nacional de Treino depois de estar assegurado o apoio individualizado, consistente e em montante suficiente para que os melhores atletas que temos presentemente tenham as melhores hipóteses de sucesso na alta roda do ténis Mundial, seja o juvenil ou o profissional.


Concluo, adaptando à actual conjuntura, como o fiz há 8 anos:
“Não tenhamos dúvidas que se continuarmos a apoiar apenas aqueles que por razões circunstanciais estão no CNT, independentemente dos seus resultados, deixando de fora os que não querem ou não podem a ele aderir, mas que têm resultados e estão no limiar do profissionalismo, estamos a prestar um mau serviço ao Ténis Nacional e a desperdiçar o trabalho, os recursos financeiros e os nossos melhores talentos dos últimos 10 anos.”
        

                                                                    Pedro Bívar

 

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