
Autor: PEDRO BIVAR
CENTRO DE ALTO RENDIMENTO (CAR)
Parte II
"O SEGREDO É A ALMA DO NEGÓCIO"
Lisboa, 29 de Abril de 2009
O TABU
Na 2ª feira, dia 27 Abril, recebi por e-mail um convite do IDP e da FPT para estar presente na Cerimónia de Assinatura do Contrato Programa do Centro de Alto Rendimento Jamor - Ténis a realizar-se dia 30 Abril na Tribuna de Honra do Estádio Nacional, às 10,30h, presidida pelo Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, Laurentino Dias.
Como estive um mês fora de Portugal em torneios, não acompanhando os últimos desenvolvimentos sobre o dossier CAR e, pensando que na minha ausência eventualmente tivesse havido grande debate sobre o assunto, fiquei bastante admirado quando um elemento da Direcção de uma Associação Profissional, que recebeu convite semelhante, me telefonou ainda nessa 2ª feira a questionar-me se tinha algum conhecimento do que se ia passar na Cerimónia e em que moldes ia funcionar o CAR.
De princípio até pensei que se tratava de uma brincadeira, mas quando realmente percebi que não o era fiquei preocupado. E quando o meu interlocutor se mostrou admirado de eu nada saber, não pude deixar de retorquir que o preocupante não era EU não saber nada sobre o assunto, mas sim ELE, na qualidade de uma Associação Profissional NADA saber a 3 dias da assinatura do protocolo.
Tentando perceber o que se passava falei de seguida com um elemento proeminente da Associação de Ténis de Lisboa, que me disse de igual modo nada saber do que se tratava e que desconhecia completamente em que moldes tal estrutura ia funcionar, mas que ia telefonar para a FPT para se informar… ainda fiquei mais preocupado!
Quando ao fim do dia conversando com um elemento de um Órgão de Informação este me confessa que estava completamente às escuras sobre o assunto, então aí pensei que realmente este devia ser o segredo mais bem guardado de Portugal dos últimos anos, dado que vivemos num país em que até os segredos de Estado mais importantes acabam na praça pública em menos de nada…
Questionei-me na altura porque é que um projecto a que muitos atribuem capital importância para o Ténis Nacional, em que o próprio actual Presidente da Direcção da FPT, Dr. José Maria Calheiros, em entrevista à Newsletter da FPT de Abril 2009 defendeu “…que era fundamental avançar com o CAR, de forma a criar uma união de esforços em torno do desenvolvimento do ténis de alta competição.”, porque é que um projecto desta envergadura, dizia, foi mantido em tamanho grau de secretismo?
Porque é que, havendo tanta discussão em assuntos de menor importância, neste, considerado fundamental para o Ténis Nacional, não houve um único contacto, sessão de esclarecimento, auscultação de opinião ou debate com os principais interessados: as Associações Regionais e Profissionais, Clubes e inclusive com os próprios organismos da FPT (Seleccionadores Nacionais, Conselho Técnico, etc.)?
Porque é que vai ser apenas na quinta-feira, dia 30 de Abril às 10,30h da manhã, no Jamor, aquando da Cerimónia da Assinatura do Contrato Programa do CAR, que os distintos convidados, presumivelmente, vão tomar conhecimento sobre a Organização, responsáveis e treinadores, atletas e de tudo o mais relativo a tão importante Estrutura para o nosso Ténis?
Não será este, mais um projecto que começa pelo telhado? Não deveriam ter sido todos estes assuntos objecto de informação e discussão prévias?
Não teremos nós Treinadores uma palavra a dizer no funcionamento desta Estrutura, já que os atletas que passarão e eventualmente treinarão no CAR em regime fixo (se é que tal modalidade existirá?) estarão neste momento debaixo da orientação de algum treinador?
E os Jogadores, em princípio os destinatários do CAR? Existindo legalmente uma Associação de Jogadores, não deveria ter sido esta consultada, sido pedido um parecer?
E os Órgãos Técnicos da FPT, foram consultados? Foi consultado o Conselho Técnico? Foram consultados responsáveis da Selecções Nacionais, desde os ligados às Equipas mais jovens até ao responsável pela Taça Davis e Fed Cup? Não teriam todas estas pessoas uma palavra a dizer ou um contributo importante para semelhante empreendimento? Nem que fosse para evitar erros do passado que se verificaram no anterior Centro e que descriminei em artigo precedente sobre o CNT?
Não posso deixar de ter uma sensação de que todo este processo é pouco genuíno, isto é, não é um projecto federativo, mas sim do IDP e da Secretaria de Estado (reconhecido como tal pelo actual Presidente da Direcção da FPT), apressado, nada foi discutido, enviam-se os convites na segunda-feira para assinar o protocolo na quinta e muito, muito secreto. Ninguém sabe de nada e o preocupante é que quem não sabe tinha a obrigação fundamental de saber os pormenores de todo este negócio.
A 1 dia da assinatura do Contrato-Programa do CAR, paira um manto de ignorância generalizada sobre a sua estrutura e funcionamento:
• Verbas disponíveis?
• A que atletas se destina o CAR? Já há uma lista de candidatos? Quem os escolhe?
• Como vai o Director do CAR conciliar o seu preenchido calendário privado com as exigências do seu trabalho no Centro?
• Treinadores adjuntos? Qual o seu papel junto dos atletas envolvidos e seu relacionamento com os treinadores destes? Quem vai dar os treinos?
• Há atletas residentes ou o CAR destina-se apenas a atletas passantes?
• Se o CAR se destina a atletas dos 15 aos 18 anos, que acontece depois de atingirem esta idade? São abandonados à sua sorte como aconteceu no anterior Centro?
• Qual o papel dos treinadores dos atletas?
• Calendários Competitivos? Verbas para Competições Internacionais? Acompanhamento a Competições Internacionais?
• As verbas a disponibilizar para Competições Internacionais destinam-se só aos atletas do CAR ou serão afectas a outros jogadores que invistam numa carreira internacional?
• A questão fulcral dos Estudos dos atletas?
• Há Preparador Físico? Qual o seu papel e como vai ser conjugado o seu trabalho com o trabalho físico já desenvolvido pelos atletas que vierem a frequentar o CAR?
• etc., etc., etc…
É por haver tanta dúvida a pairar no ar que não deixe de pensar que talvez nunca com tanta propriedade se possa sub-titular este empreendimento de “O segredo é a alma do negócio”.
A DIRECÇÃO TÉCNICA DO CAR:
Quando há dois meses saiu o artigo em jornal desportivo sobre a abertura do CAR e inclusivamente se avançou com o nome do seu futuro responsável – J. C. Silva – aproveitando a minha deslocação à FPT por outros motivos, conversei acerca deste assunto com o seu Secretário Geral para me esclarecer sobre a veracidade do que vinha nos jornais.
Ao confirmar-me a notícia e trocando opiniões sobre os moldes de funcionamento do futuro CAR lá lhe dei a minha opinião, que vale o que vale, mas que para mim tem importância, e sem beliscar minimamente a figura do nome apontado para responsável do CAR, antes pelo contrário, dizendo-lhe que era completamente contrário ao facto de a mesma pessoa – qualquer que ela fosse – pudesse acumular as funções de Treinador dum Clube privado com as de Director da dita estrutura.
Acrescentei que o que me parecia lógico era, se tal fosse a vontade das partes em avançar com tal projecto, que a pessoa em questão cessasse as suas funções no clube onde as desenvolvia e diga-se até com muita eficiência.
Ou seja o que não me parecia, e não me parece, nada normal é que houvesse uma promiscuidade de funções, uma zona cinzenta onde não se saiba bem onde acaba o Clube privado do Director do CAR e onde começa o CAR e vice-versa, e não se saber a partir de agora em que qualidade é que o director do CAR se apresenta. Como treinador do seu clube? Como director do CAR?
Parecia-me, e parece-me, que algumas das maiores atribuições e exigências que podem ser feitas ao CAR, a qualquer CAR em qualquer parte do Mundo, é ser independente, transparente e isento.
Com esta acumulação de funções do seu Director Técnico, com uma Equipa Técnica escolhida não se sabe com que critérios, poderão estar assegurados aqueles requisitos?
Poderão, dirão alguns, dada a figura e personalidade do eleito para encabeçar o cargo.
E muito bem, não estou cá eu para duvidar do que quer que seja e muito menos ter alguma reserva mental em relação ao nome proposto.
Contudo o que neste caso me parece estar em causa e o que deve ser discutido são Princípios e não Nomes. E como Principio a metodologia escolhida deixa muito a desejar.
Ao que tudo indica foi avançado um nome, e qualquer outro ficava aquém do pretendido pelos mentores deste projecto. Foram afastados todos os obstáculos e reticências que pudessem existir sobre o modelo escolhido e sem consultar ninguém avançou-se para o que muitos já consideram ser uma extensão do Clube privado do seu Director.
Com ou sem razão, justo ou injusto, mas dada a total ausência de informação são lícitas todas as especulações que se façam sobre o tema e há um aspecto que não é despiciendo neste caso. É que tal como a mulher de César não é só preciso ser pura e casta, é preciso parecê-lo, isto é, não é apenas preciso que todo este negócio seja limpo é preciso parecê-lo e que a generalidade das pessoas tenha dele essa mesma percepção.
E isso está muito longe de acontecer.
Lisboa, 1 de Maio de 2009
A assinatura do Contrato-Programa do CAR foi efectuada ontem com pompa e circunstância na Tribuna de Honra do Estádio Nacional.
Diz-me quem assistiu que nada foi esclarecido sobre a estrutura e modo de funcionamento do CAR.
A assistência saiu tal e qual entrou, isto é, na mais profunda das ignorâncias.
No discurso da assinatura do Contrato-Programa disse o Presidente da FPT:
“ Hoje vemos que há 1 união à volta do ténis, estamos cada vez mais unidos. E é esse o caminho, temos de rumar para o mesmo lado”.
Sou apologista da mais ampla diversidade formativa de jogadores e tenho como modelo um sistema em que existam vários centros a formá-los, como por exemplo acontece em Espanha, onde Clubes, Academias privadas, Centro Nacional de Treino, Centros Regionais de Treino, treinadores privados etc., todos concorrem para uma formidável e ímpar produção de jogadores de ténis. Esta é provavelmente uma das razões de maior peso pela qual o Ténis espanhol é o que é, ou seja, um dos exemplos de maior sucesso à escala mundial.
Sou pois completamente contrário a monopólios formativos em que se coloca nas mãos de uma única entidade a responsabilidade de trabalhar e produzir jogadores de ténis. Já foi tentado introduzir-se no passado tal modelo em Portugal por outros protagonistas e felizmente para o Ténis Nacional conseguiu-se evitar tão nefasta política.
O Ténis Nacional vive e terá de ter sucesso na diversidade de opiniões, conceitos, experiências, métodos de treino e da forma como todos nós consigamos interligar-nos construindo um modelo de jogador português com determinadas características físicas, técnicas e mentais que consiga singrar a nível internacional, justamente porque é o somatório dessas características (no PNDT original este era o primeiro e primordial objectivo: a construção de um jogador típico português).
Um Frederico Gil só existe porque também houve no início da sua carreira e durante anos um treinador chamado Paulo Jorge, que num minúsculo Clube com 1 campo no Carrascal em Sintra, chamado Villas Ventura, lhe deu os primeiros rudimentos da modalidade.
Temo que a forma como este CAR nasceu, contrariando as palavras do Presidente da FPT, já tenha fomentado uma grande desunião entre todos os protagonistas do Ténis em Portugal e esperemos que os termos usados não sejam premonitórios no sentido dos jogadores que agora são oriundos dos mais diversos Clubes não acabem, a bem da diversidade formativa de que falava, por rumar para o mesmo lado, que é o lado ali de um Clube da zona de Oeiras.
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Pedro Bívar
Treinador Nível III
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